terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A capacidade de nos maravilharmos

Legado de Galileu Galilei

Uma conferência debate a duradoura influência dos cientistas

Por Edward Pentin

ROMA, segunda-feira, 13 de dezembro de 2009 (ZENIT.org).- Quatrocentos anos depois de ter inventado o primeiro telescópio, o legado de Galileu Galilei continua vivo, enquanto ainda influencia a forma como o mundo vê a ciência e como a ciência vê o mundo e, certamente, o universo.

Seu grau de impacto no mundo científico e na Igreja foi analisado detalhadamente em uma fascinante conferência em Roma, organizada pela Pontifícia Universidade Lateranense.

Intitulado “1609-2009: Do telescópio de Galileu à Cosmologia Evolutiva – Ciência, Filosofia e Teologia em diálogo”, o encontro de 3 dias reuniu uma série de conferencistas de primeira categoria, incluindo dois Nobéis de Física, cosmólogos, teólogos e filósofos. O evento acontece no final do Ano Internacional da Astronomia, para celebrar a invenção de Galileu em 1609.

A conferência começou, logicamente, esclarecendo os mitos que ainda existem no referente a Galileu e sua relação com a Igreja. O Dr. Own J. Gingerich, antigo professor e pesquisador de astronomia e de história da ciência na Universidade de Harvard, apresentou a história da controversa.

Eliminou rapidamente a acusação mais famosa e ao parecer mais irrefutável: que a Igreja torturou Galileu. Enviou-se uma carta ao astrônomo italiano, afirmava Gingerich, que indicava que deveria ser “interrogado por uma veemente manifestação de heresia” e que concluía “sendo mostrados legalmente os instrumentos de tortura”.

Não obstante, Gingerich afirmou que Galileu “certamente não foi torturado e suspeito que tampouco tenham lhe mostrado os instrumentos de tortura, mas estava em seu terceiro interrogatório quando percebeu que não haveria debate, que não seria capaz de sustentar que o sistema copernicano deveria ser levado a sério”. A partir de então, estava disposto a “confessar de qualquer forma que lhe fosse pedida, a aceitar a prisão domiciliar e a ser devolvido a Florença”.

O professor Gingerich dizia que era especialmente importante ver o caso de Galileu dentro do seu contexto. “É preciso compreender que a maioria das pessoas pensava que o sistema copernicano era totalmente ridículo; além disso, ninguém queria adotar o sistema copernicano.”

O astrônomo americano fez também uma observação especialmente pertinente: que a controversa de Galileu “mudou essencialmente a forma de fazer ciência, porque hoje a ciência trabalha sobretudo pela persuasão e não pelas provas, e Galileu influenciou muito para que isso ocorresse”.

Era de descobrimentos

No entanto, os avanços na astronomia foram, desde então, impressionantes, e muitos deles ocorreram durante os últimos 15 a 20 anos. “Estamos em uma era de grandes descobertas e fazendo grandes progressos”, afirmava o professor George F. Smoot, ganhador do prêmio Nobel de Física em 2006 por seu trabalho para ajudar a entender a teoria do Big Bang.

Graças ao telescópio especial Hubble e ao mais recente observatório espacial Planck, lançado pela Agência Espacial Europeia, os astrônomos podem agora ver o universo com um detalhe muito maior. Smoot, cuja tarefa é cartografar a superfície do começo do universo, comparava dois mapas do globo para ilustrar quanto se progrediu.

Um mostrava todos os continentes cartografados mais ou menos como em um atlas medieval; o segundo mostrava a terra com grande detalhe topográfico. O primeiro representava o que sabíamos do universo em 1992; o segundo, o que conhecemos hoje.
Os telescópios atuais levaram ao descobrimento de pelo menos 100 bilhões de galáxias no universo, observou Smoot, levando-o a apresentar uma questão cosmológica provocante: “Se o propósito do universo é que o ser humano pudesse viver nele, por que fazer tantas galáxias?

Claramente seria mais que suficiente criar o sistema solar; no entanto, há muitas, muitas galáxias distribuídas de formas estranhas e evoluindo ao longo do tempo. Por isso, a questão que se tem em cosmologia é explicar toda esta série de fatores”. Acrescentou que os astrônomos esperam que Planck os ajude a compreender melhor a natureza fundamental da criação do espaço e do tempo, que “é muito crítica”.

Muito além da observação

Em sua mensagem aos participantes da conferência, Bento XVI afirmou que a lição de Galileu é também um convite a ir além do que se pode observar. As questões sobre a imensidade do universo, sua origem e seu fim “não admitem uma única resposta de caráter científico”, afirmou. “Quem observa o cosmos, seguindo a lição de Galileu, não poderá deter-se somente naquilo que observa com o telescópio; deverá ir muito além, interrogando-se sobre o sentido e o fim ao qual se orienta toda a criação”.

Neste contexto, observou o Papa, a filosofia e a teologia têm um importante papel “para aplanar o caminho rumo a ulteriores conhecimentos”.


Alguns oradores destacaram que Galileu valorizava a Escritura, observando que ele gostava de citar o cardeal Cesare Baronio, que afirmava: “A Bíblia foi escrita para nos mostrar como ir ao céu, e não como está o céu”. Mas Galileu insistia em que a Bíblia não deveria ser interpretada ao pé da letra ou como um instrumento de prova da ciência. Ao fazê-lo, esperava que esta visão fomentasse a reconciliação entre a fé e a ciência (seus detratores, no entanto, assumiram a postura oposta e viram nisso uma tentativa de interferir na teologia).

No entanto, segundo o arcebispo Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, a postura de Galileu sobre o literalismo ensina algo muito relevante ao mundo de hoje: que tais interpretações da Bíblia conduzem ao fundamentalismo.

O prelado italiano, que é também um renomado erudito da Bíblia, afirmou que os textos bíblicos são “uma realidade viva” e, portanto, implicam no risco do fundamentalismo. Mas também destacou que, através da Bíblia, pode-se chegar a apreciar a “estética da criação”. “O homem não pode jamais estar presente na criação somente estudando-a do ponto de vista científico – explicou. Ao estudar o universo do ponto de vista científico, o cientista se deixa envolver pela linguagem simbólica e recorre às emoções estéticas, poéticas.”

“Da contemplação estética da criação dimanam grandes questões existenciais – afirmou Dom Ravasi – e este é um dos nossos grandes empobrecimentos.” Não é que a humanidade não tenha progredido na ciência, mas “é o homem que não progrediu na contemplação da beleza da criação”.

Citando G. K. Chesterton, afirmou que “estamos perecendo não por falta de maravilhas, mas por falta de capacidade de maravilhar-nos”. O arcebispo depois pediu a crentes e a não-crentes que descobrissem “o valor secreto, o valor poético” da criação.

Ordem ou desordem?

Como uma observação interessante, o professor Smoot afirmou em sua conferência que o universo é “extremamente ordenado” e parece que chegará a estar inclusive mais ordenado.

Isso levou um participante do auditório a perguntar sobre a observação do professor, questionando se, como se pensa comumente, o universo está se expandindo e esfriando a uma temperatura uniforme e, portanto, se tornará mais desordenado, um processo conhecido em termodinâmica como entropia crescente.

A conclusão lógica é que, se isso é assim, então o universo se dirige a uma possível morte, ou o que os astrofísicos chamam de “morte quente”, na qual toda a energia do cosmos terminará como uma distribuição homogênea de energia termal, de maneira que não se possa extrair força de nenhuma fonte.

O professor Smoot respondeu dizendo, em primeiro lugar, que a parte mais precoce do universo tem uma baixa entropia. Depois continuou: “A entropia é maior onde não há buracos negros e nosso conhecimento atual é que a maioria da entropia do universo está nos grandes buracos negros”.

“A entropia específica é ainda bastante baixa e, ainda que o universo tenha começado extremamente ordenado, tornou-se menos ordenado. Ainda que pareça ordenado, quando se observa como se distribuem as galáxias e a matéria escura, atualmente está mais desordenado que quando começou, com quase uma uniforme distribuição.”

“Esta desordem está aumentando e um dos principais debates de hoje é se esta entropia continuará crescendo sempre ou se em algum momento esta informação se perderá e se apagará e se chegará a um novo Big Bang.”

“Esta é uma das questões interessantes da cosmologia atual: inclusive ainda que pareça que nos ordenamos mais, não é assim.”

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Edward Pentin é um escritor independente que reside em Roma. Pode ser contactado através de epentin@zenit.org

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